quinta-feira, 12 de abril de 2012

lonely boy

uma nostalgia funda, pesada, quente e contínua. quase confortável. quase.
sentia que tudo o que fazia que não fosse aquilo era cansativo, penoso, um estágio de espera entre esta vez e a próxima.
queria colo, precisava pensar, não conseguia produzir no trabalho nem em casa, era grosso com as pessoas. sabia-se bom e generoso, mas precisava dormir. antes que dormisse direito não conseguiria mais ser bom. talvez se dormisse direito conseguisse se sentir bem de novo, sem precisar recorrer àquilo.
querendo dormir, decidiu fazer alguma das coisas que tinha que fazer. trabalhava e pensava sem parar, mas se distraía a cada minuto e tinha que começar de novo.
pensava que tinha que parar de se distrair, e mais uma vez era sabotado por seu próprio funcionamento, porque pensar em não se distrair não é o mesmo que não se distrair.
precisava parar.
não sabia se precisava parar de trabalhar, de dormir ou de fazer aquilo. ou de pensar naquilo em vez de trabalhar ou dormir ou fazer aquilo.
decidiu que ia trabalhar, depois dormir. se acordasse mal, ainda faria, uma ultima vez. isso o confortou, ao menos não era uma decisão extrema.
enquanto trabalhava pensava na ultima vez que faria aquilo com uma ansiedade quase infantil. pensando nisso, não terminava.

acabou não terminando nunca. mas, mesmo nunca mais dormindo, sonhou para sempre com o que ia fazer quando acordasse.

quinta-feira, 22 de março de 2012

light bugs

voam como se estivessem vivos
como se a noite - que é o escuro dentro de mim - fosse quente

meu coração é uma lampada
que balança quando batem de cabeça
frenesi de cérebro miúdo de inseto

a ironia é o verão e a noite chegarem sempre junto(s)
com a lua verde
da tua bolinha de status.

domingo, 4 de março de 2012

O x da questão

Se me fosse vedado, eu morreria?

Defina morrer, por favor.

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Melhor: defina eu.

#nobodywins

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

self-expression

tem uma mina por aí fazendo palíndromos e chamando de arte. minha revista coquetel se encaixa? o que define, pelamor?

gostaria muito de saber pra saber se desisto ou continuo. vai que me acham as bobagens postumamente e eu retratava a angústia do meu tempo e não sabia?
(duvido horrivelmente, mas tudo bem. sonhar é normal, pelo menos)

leio e leio e leio (e escrevo três linhas por arroubo criativo) e me acho mais burra. escuto música (cantando) e me acho burra e feia. não vou mencionar a gordura. mencionei, ê!

pelo menos essa coisa toda parece que ta indo pra frente, mesmo que a frente seja a desistência honrosa. a arte precisa de expectadores, não precisa? pois treino isso, em último caso (esse semestre as leituras estão decentes, devo admitir).

e gastronomia também é arte, oras. aliás, duvido que seja só larica, estou, de fato, cozinhando cada vez melhor.

cheers.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

skin

ainda não estou bêbada
não vou sair sem lápis
e adoro essa blusa, esconde meus braços

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Descrição de processos

Sentava e pensava nele. Tinha que ser um cara, pra não ficar muito autobiográfico. Tinha que ser jovem, pra poder ser um pouco. Infância difícil, porque as fáceis não valem o seu tempo, já dizia Frank McCourt. O que me lembra de inserir uma citação de outra obra literária que eu ache foda, pensou. Riu. Ele tem que estar fazendo algo. Algo que permita começar uma história. Uma atividade que tivesse que ser baseada em uma linha de pensamento que ela pudesse narrar. Será que tá muito óbvio? Mas continua ruim... o que falta? Puta que o pariu, vamos usar uns palavrões, ver se melhora essa porra. Não. Crise de identidade da personagem principal? Parece. Brainstorming. Confusão. Medo. Preguiça. Chega, vou fugir num final abrup

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Pós-desejo de morte

Faz um tempo que não sai nada aqui.

No momento atravesso o pior momento de saúde da minha vida. Dores de cabeça, febre, tosse, (MUITO) ranho, dor de garganta, dor de ouvido, dor no pulmão e sangue no espirro. FUCK YEAH!

Já estou melhorando, mas essa semana por um momento achei mesmo que fosse morrer. E considerando que não me pareceu uma má ideia, tive que parar e repensar como vinham vindo as coisas. Porque né, não morri, não vou morrer naturalmente (pelo menos não essa semana) e não tenho coragem (nem a cara de pau, pobre da familia!) de me matar, então naturalmente preciso resolver o que faz a morte parecer a melhor opção.

Este foi um semestre conturbado. Crises, festas, drogas, pessoas... E qualquer veneno antimonotonia pra ansiosa aqui achar que a vidinha medíocre dela valia a pena. Estive apaixonada, perdidamente, e aguentei todo tipo de histórias e convidei pra todo tipo de atividades e incentivei todo tipo de barbaridades com terceiras só pra manter o contato e ser a melhor pra ele em qualquer aspecto que fosse (a amiga mais porra louca? bff, por que não? me escolhe, me escolhe!). Não posso dizer que esteja curada, mas finalmente acho que não me afeta mais tanto. Acho. Digo acho porque semana passada foi a ultima ocorrência, mas enfim, pelo menos a angustia hoje tem menor tamanho do que quando eu queria casar com ele...

Mudei de emprego e descobri em mim a workaholic mais estúpida da face da terra. Me tomei por responsável pelo bagulho, peguei MUITO mais horas do que deveria e acumulei trabalho de uma maneira que me fez achar plausível que a faculdade ficasse de lado. Não que precise muito pra eu deixar a faculdade de lado, dá uma olhada no meu histórico lá... Mas de qualquer forma, por conta de 2 ou 3 atrasos e duas gripes (uma sendo a presente), descobri esta semana que a velha me acha uma irresponsável e não vai renovar semestre que vem. Na minha mania de achar que estou errada (sim, essa é das mais marcantes), não consegui mais do que pedir pra ela reconsiderar porque eu gosto das crianças. Meu colegas unanimemente chamaram a chefe de louca quando contei a história, e só então me dei conta de que realmente era injusto. Em todo caso, mesmo que ela chegue a reconsiderar, já tenho outros planos...

Não rola mais não fazer as cadeiras. Não rola mais a arrogância de achar que só porque consigo ir razoável nas coisas posso não estudar. Não rola mais papai pagar o aluguel pra filhinha estudar e ela não estudar. Sabe quando tua ficha cai e tu te da conta de que tem contas a prestar pra gente mais importante que a tua chefe? Tipo, pro teu (não, não é o papai) futuro? As cliché as it might sound, não quero ganhar pouco pra sempre. E não quero ficar doente e querer morrer porque trabalho mais do que deveria. Quero estudar e viver disso, sem preguiça, porque é disso que eu gosto e eu tinha esquecido.

Em breve mais detalhes. Bora resolver a pendência do plano de saúde, pra começar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

trashcan

vergonha até de escrever isso, mas é bom que eu guarde essa sensação pra posteridade mesmo.

mandar pro cara que te faz acordar chorando um e-mail dizendo que você quer (só) sexo e nem assim.

(Y)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Aninho começando bem...

Feliz 2011. Yeah, well...
Foda que eu só venho aqui quando a situação não é das mais positivas. Isso porque, quando positiva, estou ocupada. 'Com o quê?', o nobre leitor perguntaria. 'Com o cara mais genial do mundo', responderia eu.

Conversando, bebendo, fumando, ouvindo música, tocando, cantando, passeando, comendo fora, cozinhando, trepando, lendo, assistindo o gato fazer bobagens, pegando a porra do onibus lotado por mais de hora pra se ver, vendo filme, vendo séries, vendo merda no youtube, fumando mais, passando café e fazendo torrada às 17h, que é a hora de acordar no fim de semana e foi a dessas férias também...

Enfim, cada uma dessas coisas eu faço com ele, e o bem que isso tudo me faz me impede até de olhar e-mail, às vezes.

Caso é que às vezes o destino me impede de vê-lo. E, pior de tudo, às vezes ele decide ficar na sua, sans moi. Um dia porque precisa estudar, um dia porque a mãe reclama que não para em casa, um dia ta doente, um dia ta cansado...

Beleza, faz parte. Eu também gosto de fazer minhas coisas, ficar no meu canto, dormir com meu gato... E eventualmente entro no clima e faço tudo isso. Até aí estamos saudáveis.

Mas o dia em si, aquele dia em que a gente se separa, seja pelo motivo que for, é fatal: eu choro (quando já estou sozinha, claro). Eu fico braba, quase briguei com ele, que, por sinal, estava doente. Eu choro de raiva, de solidão, de nem sei do quê. Eu choro enquanto escrevo esta porra, só de falar do nó que se cria cada vez que a porta bate e fica cada um de um lado. E o mesmo desespero não sai de mim, pelo menos não até o dia seguinte (às vezes dura um poquinho mais, mas daí aparece um ou outro amigo e eu consigo voltar a respirar).

E eu acho que eu preciso de ajuda. Isso não é normal, nem saudável, nem bonito. Embora passe eventualmente e eu volte a ser uma pessoa minimamente equilibrada, o percurso é muito doído e por uma coisa muito estúpida.

Antes de hoje eu não tinha demonstrado a psicopatia em ação, por pura vergonha. Até já tinha falado sobre isso com ele, mas amenizando bastante, como quem conta bonitinho o quanto sentiu saudade... Hoje fiquei mais braba do que nunca, não sei por que, e saí da casa dele batendo porta. Liguei mais tarde pedindo desculpas, que foram aceitas, mas o clima tá pesado. Ele lá doente, eu aqui, doente.

Penso nos outros relacionamentos e eu nunca fui tão loca. Claro, meu histórico tem pessoas bem menos independentes, que mesmo quando tinham que se separar mandavam coisas, davam toques, demonstravam saudade. Até porque meu relacionamento anterior foi um casamento, então era raro nos separarmos.

Agora tenho que reaprender a namorar, e acho que não sei mais como mesmo. Não que ele saiba, acho mesmo que cada um peca por um excesso aqui (porque quando não é ao vivo ele não tem 'paciencia', nem pra telefone, nem pra msn... eu acho estranho, porque no início a gente virava noites conversando...).

Não sei, tenho medo de estar louca, ou depressiva, ou dependente, ou todas as anteriores.

Mas tenho mais medo ainda de que isso passe e fique tudo bem, e chegue o fim de semana e a gente se veja e faça todas aquelas coisas citadas acima, e quando a gente se separe eu esteja como estou agora.

Foda ter medo de uma coisa que a gente sabe que vai acontecer.

Feliz 2011 pra quem é emocionalmente retardado. Beijos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Amor?

Estranho me comportar bem. Mais estranho ainda porque o momento não é nada propício, pra nenhuma das partes. Mas, aparentemente, quando a gente gosta da pessoa a gente faz funcionar. Veremos. Estar bem comigo mesma, como agora, é o que importa. Se ficar assim, posso até ir contigo morar na praia e plantar hortaliças. Só te liga, né, porque tu sabe o que eu preciso pra continuar querendo me comportar...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Mentiras sinceras

Alguns me acham insensível. Malvada até.

Já vi nos olhos de amigos próximos a mistura de pena e nojo que só a confissão de ações extremas consegue produzir (extrema é modo de dizer, não matei ninguém). Te entendem, afinal conhecem teu contexto e sabem que às vezes é difícil se manter na linha (da moral burguesa cristã, mas enfim, o mérito hoje não é a validade da moral, é a moral como ferramenta). Ao mesmo tempo, te acham imoral, errada, má mesmo, e têm pena das pessoas que interagem contigo (e gostam de ti), porque, afinal, você não respeita nada mesmo, sua vadia.

Às vezes até eu me acho má. Me assisto, quase como se fosse de fora, contar mentiras e esconder coisas deliberadamente, e deliberadamente puxando a brasa pro outro (meu) lado. Muitas vezes o assunto em questão nem mereceria menção, mas dou um jeito de mencionar para reafirmar minha (falsa) inocência. Mais além, independente de ser verdade ou mentira, de ser fato consumado ou vontade, trato de parecer coerente, mesmo que não seja.

Então percebo que estou apenas tentando conservar as coisas de um jeito que os envolvidos se sintam bem, e reafirmar meu comprometimento emocional real a determinada situação (leia-se pessoa, já que tá ficando explícito mesmo). Não posso contar coisas que fiz a quem se importaria com elas de uma maneira ruim para si mesmo. Menos ainda devo machucar outras pessoas se o que aconteceu não mexeu comigo. E mesmo que tenha mexido, afinal, nenhuma interação passa em branco, não preciso divulgar se, passado o tempo necessário para que me transformasse, não vai interferir mais na minha vida. E, principalmente, tem coisas que a gente tem que resolver sozinha, internamente, sem falar no assunto. Mesmo quando não resolve nada.

Por um momento nas últimas semanas, depois de uma dose cavalar de ‘interações’, achei que tinha mudado. Achei que, agora sim, era uma pessoa normal e fazia o que se esperava de mim emocionalmente e estava radiante de tão feliz. Durou até a sexta-feira seguinte. Depois dessa, passei uma semana me prometendo que enough was enough. Durou até o sábado seguinte (passado). Hoje, menos ingênua, e com menos fé em mim mesma, só quero muito que nunca mais nada parecido aconteça. Mas, merda, dados os convites e planos, talvez só dure até amanhã.

No meio dessa balbúrdia e dessa mentirada e da confusão que está a minha cabeça, além de tudo, tem algumas ‘interações’ IMPOSSÍVEIS nessa jogada e que me perturbam mais do que as que acontecem, exatamente por serem impossíveis. E nessas não posso mesmo tocar, porque machucariam os envolvidos de um jeito que eu não tenho nem como conceber. Não vão acontecer, nem que eu me suma da vida de todo mundo, mas não vão. Canalhice tem limite e é bem esse. Mesmo assim, estar pensando nisso me faz sentir tão, mas tão mal... Tão, mas tão má.

Não sei mais se sou boa ou má ou louca. Não sei se o que define isso é o que penso, o que faço ou como faço. E na lógica do ‘como faço’, que é a definição que tenho usado pra me sentir menos pior, não sei mais se me escondo para poupar os outros ou para me livrar a cara. Neste exato momento, to mais pra segunda opção, embora a primeira seja imediatamente contemplada, o que deixa a coisa menos feia.

De qualquer forma, a merda geral e a certeza definitiva são a mesma e uma só: o que eu estou sentindo é amor, sim. E, dentro das minhas muitas limitações, meu objetivo é fazer com que essa pessoa ria mais do que chore e confie mais do que tema. Nem que pra isso eu tenha que mentir, pelo menos por hora.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Expectativa

Peço desculpas, again. Faz um tempo que eu não posto nada. Não posso dizer que foi por falta de tempo, porque tempo foi o que não faltou nos últimos dias. Não que eu tenha aproveitado produtivamente, mas existiu tempo livre.
Começo posts e apago, desisto, volto uns dias depois e faço de novo... Nem sei se esse de agora vai ao ar, mas me obrigo a tentar, pela minha própria sanidade mental.



Acho que o tema do momento é expectativa. Na vida, profissionalmente, afetivamente, financeiramente...

Essa semana fui surpreendida em vários aspectos, em relação ao que eu mesma esperava (nem digo plenamente 'esperava', porque eu não tinha nada o que esperar de fato, mas mais no sentido de como a gente acha que as coisas vão correr, de planejamento de reação à ação mesmo) e (acho) em relação ao que eu achava que os outros esperassem de mim. E fiquei me perguntando o quão saudável é ou não achar que a gente sabe onde está pisando.

O grande problema de esperar (expectativicamente), pra mim, parece ser que eu finalmente entendi que ninguém tem como prever a resposta (reação) do mundo sobre nossos atos. E o problema reside justamente em pensar que o que a gente faz volta. E que a gente controla o mundo à nossa volta a partir disso, ou seja, se você for dedicada e esperta e comedida e querida e insistente e paciente o suficiente, que as coisas acontecem de acordo.

Mentira.

Essas últimas semanas me mostraram que tem coisas que acontecem sem o menor porquê. E que tem outras que, por mais que a gente bote toda a energia do mundo, simplesmente não vão rolar, simplesmente porque o mundo é uma merda e deu.

Acho que a sacada das últimas semanas foi me dar conta de que tenho que aprender a lidar com a agonia de não saber o que vai acontecer nunca. Simplesmente porque qualquer planejamento é uma mentira, conceitualmente. Achar que sabemos ou controlamos algo é uma ilusão, e saber que não se deve esperar nada e tentar apenas lidar minimanente com o que se tem, quando se tem, é muito menos frustrante, por mais frustrante que o vácuo possa ser.

Devo a mim mesma entender e aplicar à minha realidade que nada é certo, nada é para sempre, nada é tão sólido que não possa um dia se decompor nem nada é tão disforme que não possa se compor se as circunstâncias forem favoráeis.

Enfim, vamos assim mesmo, lidando com o que acontece de fato, ou pelo menos tentando. Não tenho saco pra reler mais ada, era isso.

Acho que tenho que interagir mais com o presente, e só. Sem passado, sem futuro. Agora, com o que tem. E era isso. Ta faltando ritalina nesse meu corpinho.

sábado, 16 de outubro de 2010

Pocket Caravan

http://www.pocketcaravan.co.uk/index.html

Descobri através de um amigo de um amigo. Nem gosto dele (do amigo do amigo), mas o som é simplesmente fantástico.

sábado, 2 de outubro de 2010

Criação (literária)

Me obrigo a começar pedindo desculpas pelo tamanho, mas tive uma conversa perturbadora esses dias.

Falei com um cara que me disse que não escrevia em primeira pessoa nunca. Algo a ver com a identificação do leitor, com não puxar a narrativa muito pra si, deixar espaço para o ‘espelho’ que o nosso possível leitor pudesse fazer do texto, considerando que ele não poderia encarar o texto (narrativo, nesse caso) como uma experiência ‘com dono’, com um dono conhecido. Escrever na terceira pessoa, nesse sentido, segundo o gênio literário com o qual eu interagia, seria meio como se a história fosse de uma terceira pessoa (dã!), com a qual o leitor em tese poderia se identificar sem medo de julgar mal, já que não se trata do ‘eu’ de quem ele sabe que o texto veio, e sim de um ‘ele’ que esse autor descreve, e que, aí sim, pode ser lido/julgado de uma perspectiva mais segura.

Me ocorre agora que a função do narrador onisciente talvez fosse mais relevante nesse aspecto do que a pessoa do discurso. Queria ter pensado nisso no momento dessa conversa genial, para poder interagir com mais firulas acadêmicas e com menos da minha própria opinião.

Em vez disso, me contentei em comentar que, no que toca à ficção, sempre escrevi TUDO em primeira pessoa, porque: 1. não quero descrever terceiros, nem me dar ao trabalho de falar de mim na terceira pessoa só pra parecer que não sou eu; 2. não me parece que usar primeira pessoa seja determinante no entendimento da personagem pelo leitor, considerando que o leitor sabe que aquilo é ficção; e 3. não me importo com a experiência do leitor (até sim, mas não antes da minha).

Morreu o assunto. My bad, da próxima vez fico quieta, se isso te faz mais feliz. Não que eu fale muito, porque não falo mesmo. Acabo ficando quieta justamente por situações como essa, em que eu entendo a posição do outro e o outro se ofende quando meu entender não é sinônimo de concordar. E, convenhamos, quando se discute literatura isso acontece, tipo, O TEMPO TODO, COM QUALQUER PESSOA. Daí eu não discuto literatura, porque, né, muita mão convencer as pessoas de que eu não acho que estou mais certa que elas (embora ache, mas, gente, isso não deveria importar tanto pra vocês – eu sei que vocês acham que estão mais certos que eu e isso não me incomoda). Se a galera entendesse que discutir literatura nada mais é do que um exercício de exposição monologógica alternada, eu falaria mais.

Em todo caso, depois disso comecei a pensar em escrever ficção. Confesso que já tentei no passado e me dei mal. Assim, não que o enredo em si fosse ruim, até acho que não era, mas minha estética sempre foi pobre. Não sabia (não sei, na verdade) não ser chavônica e brega (já ouvi jornalística, em tom de desdém, e sei que a criatura tinha razão; o que é foda se eu confessar que até então eu tinha curtido o texto jornalístico em questão). Aqui tanto faz, laboratório é pra essas coisas, mas a raiva que me dá ver a galera escrevendo bonita e engraçadamente sem esforço aparente é quase feia, e isso me fez desistir da ficção.

Até agora, I mean, hoje penso em escrever algo. Tenho lido mais e pensado mais sobre criação, e discutido ferramentas e processos com uma frequência que tem me atordoado. Mas também, se a criatura parasse um pouco com a esbórnia talvez sobrasse algum neurônio que pudesse ser aproveitado em um produtivo tête-à-tête com meu querido amigo Word. Discutir criação literária em mesa de bar, ou, pior, durante um almoço ressaquento, acompanhada da pessoa semiletrada com a qual você acaba de ter um one night stand – e a cuja capacidade intelectual você acaba por dirigir tanta credibilidade quanto ao desempenho em outras áreas, o que de forma alguma contaria pontos para essa pessoa, especificamente ­­– é tão empolgante quanto contraproducente. Empolgante porque, enfim, parou-se para pensar em algo interessante, no meio do monte de bosta que a gente fala nessas situações e que não te acrescenta em nada. Broxante, em parte, especialmente a situação do almoço ressaquento, porque essa criatura que curte funk, biologia, teologia e autoajuda, escreve ficção e POESIA (!) e bloga sobre o time do seu coração se dar ao trabalho de pensar sua própria criação literária (não vou nem entrar na qualidade da criação literária, porque, né...) e você, tão esperta e crítica e intelectualmente elevada que é, nunca ter se dado ao trabalho disso antes é tipo, ‘sou uma bosta de pessoa mesmo, até isso aí pensa no assunto e eu nem...’.

Aaaanyway, a questão, no fim das contas, é a minha frustração comigo mesma em relação ao fato de não estar nada, nada, nada, mas nada produtiva mesmo nos últimos tempos. Não li o que eu queria, acabei não fazendo NADA dos trabalhos de faculdade que tinha me prometido fazer essa semana, só bebi e puteei (não ia conjugar isso com ‘i’ nem fudendo), e nem aqui postei mais nada novo (o último post era um texto mais velho; pronto, falei).

Daí, no momento em que eu deveria estar me encaminhando para fazer outra coisa prosaica da vida, tipo ir na casa de alguém (com quem eu marquei um compromisso COM HORÁRIO, óbvio, já que eu faço essas coisas o tempo todo, como se não me conhecesse), ainda por cima no exato dia em que deixei de fazer uma coisa elevadamente importante pra mim em troca de prazeres terrenos (pelo menos hoje valeu mais a pena do que todas as outras vezes que fiz dessas nesta semana), decido *plim!* escrever. Beleza, ainda não cheguei no ‘nívo’ da ficção, mas o fato é que estou sentada escrevendo quando tem 400 milhões de outras coisas que eu queria estar fazendo neste momento (incluídos os prazeres elevados e os terrenos, os compromissos com pessoas amadas que eu nunca cumpro direito e as coisas que eu devo a mim mesma).

A parte boa é que, querendo ou não, por mais frustrante que seja esse redemoinho, me sinto produzindo, porque, pelo menos, parei pra pensar. Como se pensar fosse uma atividade. Como se apenas pensar no ato de criar algo já valesse como se eu tivesse, de fato, criado algo. Idiota, não? Sim, mas me faz bem, era isso.*

Agradeço o espaço. ^^

* E é bem mais saudável do que a última semana, física, intelectual e psicologicamente. Se me der na telha escrevo mais sobre essa inusitada semana em outro momento, mas né, daí ia virar mulherzice, e estou me policiando pra não fazer mais isso com esse pequeno blog sem identidade.